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Hostel 2
Violência para que te quero!

 

Uma cena de decapitação, outra de radical canibalismo e também a famosa sequência de castração. Isto fez de Hostel2, acabado de estrear, alvo de controvérsia. Já o consideraram «Tortura pernográfica» e ao seu realizador, Eli Roth, um tarado perigoso. Falámos com este protegido de tarantino e convidámos um psicoterapeuta português a avaliar o potencial grau nefasto desta sequela. Afinal, quem tem medo do papão da violência em Hollywood?

Texto: Rui Pedro Tendinha, Cannes

Fotografia: Rico Torres

NOTÍCIAS MAGAZINE Nº 795 de 19 Agosto 2007

 
 

É uma vaga, uma moda em hollywood: filmes de terror com violência explícita e sempre com a temática da tortura como prioridade. São os chamados gornos ( junção da palavra gore com porno ) ou torture porn. A discussão já tinha estalado quando os estúdios americanos começaram a apostar neste tipo de filmes, sobretudo em 2005, o ano dos sucessos de Saw – Enigma Mortal e do primeiro Hostel. O rastilho da contestação aumentou na véspera da estreia de hostel 2 nos EUA, no passado mês de junho. Os detractores bateram forte e feio na forma como a violência começou a ser completamente explícita. A grande maioria da imprensa americana atacou o fenómeno do «vale-tudo» em viloência e chamou, literalmente, «irresponsáveis» aos realizadores e produtores. O certo é que esses filmes fizeram muito, muito dinheiro nas bilheteiras. Uma nova geração de espectadores já não engole nenhuma obra de terror sem as entranhas bem à mostra ou os miolos de uma miúda bem escarrapachados em primeiro plano. Com tantos protestos, começou a pensar-se que, se houver recuo de violência nesses filmes, estaremos então perante uma certa forma de censura. Levanta-se, obviamente, a questão da liberdade de expressão artística. Em defesa desta tendência poderão estar argumentos que apontam para o direito à transgressão. O segredo do sucesso é precisamente dar a impressão ao espectador de que está a ver qualquer coisa de perigoso, de proibido. Em todos esses filmes a tónica, para além da tortura, é sem dúvida o grau elevado do sadismo dos vilões, todos eles de uma imoralidade inimaginável.

Quem parece estar a ser o principal bode expiatório disto tudo é Eli Roth, realizador vindo do cinema independente e especialista em emoções fortes. Foi ele quem criou e imaginou a demência confessa da saga Hostel. É ele quem está a ser acusado de «mente doentia» ou cineasta com tendências sádicas. Para desmontar as acusações, chegou a consentir que um grupo de psicólogos e psiquiatras o avaliasse a partir do visionamento de Hostel 2. Por muito que todos os fotogramas salpiquem sangue, os psiquiatras desmentiram qualquer distúrbio mental. A reputação de Roth acabou por não ir totalmente ao ar, mesmo depois de muitos, inclusive colegas, terem concordado que tinha ido longe demais. Quem sempre o defendeu foi Quentin Tarantino, que já o tinha ajudado no primeiro Hostel. Ambos os filmes chegam com um rótulo «Quentin Tarantino apresenta» e foi o próprio realizador de Pulp Fiction quem o escolheu para actorem À Prova de Morte, eventualmente também um filme de terror com pernas amputadas e algum banho de sangue.

Como não poderia deixar de ser, a violência no cinema, à luz dos nossos dias, tem os seus adeptos. Em 2007 já não nos assustamos com sangue à distância e são muitos os defensores deste imaginário cru. Filmes como SinCity ou o próximo Rambo usam e abusam dessa opção explícita, não sendo catalogáveis como películas de terror. Ou seja, o horror ganhou na América uma bravura mais realista e quando em Setembro chegar Planeta de Terror, de Robert Rodríguez, ficaremos a pensar se toda esta gente não anda a competir para ganhar o prémio do mais repulsivo, nojento e impressionante filme da história do cinema. Claro, para já, o que está em causa é perceber se o sadismo de Hostel 2 será, ou não, desviante ou nocivo, chamemos-lhe assim.

O filme convida-nos a entrar num clube de tortura, em que mediante uma fortuna qualquer milionário vai até uma pequena vila da Eslováquia para torturar e matar, como quiser, jovens turistas raptados. A garantia é que não são apanhados porque a organização assegura sigilo e segurança totais. Na prática, o que vemos são decapitações, uma perna a ser cortada para consumo canibalesco, um duche com o sangue de uma virgem pendurada, uma castração a um homem e uma já mítica desfiguração com motosserra. Respiramos fundo e prosseguimos. Hostel 2 tem requintes de tortura para dar e vender. No meio de tanto choque, os espectadores, entre a perplexidade e o desconforto, riem-se. Riem-se de nervosismo. Claro, o realizador defende-se. Faz figura de provocador e lembra a todo o momento que o filme está classificado para maiores de 18 anos, que só entra no cinema quem gosta do género. Quem o conhece sabe que ele é tudo menos uma pessoa violenta.

 
 
 A palavra ao psicólogo

 

O psicoterapeuta Vasco Catarino Soares, da Clínica Insight – Psicologia, não o conhece mas depois de ter visto o filme avança com a hipótese de um retrato psicológico apenas a partir do que assistiu em Hostel 2: «Pode ser que seja uma pessoa com grande necessidade de expressar raiva ou medo, mas possuidora de uma personalidade algo narcísica (que em psicologia significa ter necessidade de reconhecimento por parte dos outros, necessidade de aparecer, de ser visto, falado. Recupero aqui uma frase de Oscar Wilde que pode esclarecer: “Falem bem de mim. Falem mal de mim. Mas não deixem de falar de mim.”). Ao ter esta necessidade de ser notado, sendo realizador no meio de centenas de realizadores, talvez tente fazer a diferença para não ficar no anonimato. Uma forma rápida e mais acessível a estes indivíduos é enveredar por conteúdos chocantes ( garantia de ser falado, nem que seja pela critica negativa). Também são indivíduos que gostam de ir pela contracultura, rompendo com a ordem vigente, o que lhes dá a sensação de estar acima dos costumes: fazem coisas chocantes, que escandalizam os outros.»

Seja como for, o nosso convidado desconfia que este tipo de filmes hiperviolentos acabe por não ser perigoso para os espectadores. Catarino Soares lembra que este excesso de violência está a ficar banalizado pela sua própria sobreexposição. Na prática, «esta vaga de filmes sobre tortura será explicada por vivermos num mundo em que as respostas de agressividade e desprezo pelo valor da humanidade vão acontecendo com mais facilidade. Em parte, motivados pela banalização da violência e por um certo vazio de valores ou até utopias. Num mundo sobrepovoado, onde a expressão natural das vontades e sentimentos dos indivíduos é mais dificultada (pelo efeito de número, pela falta de canais de expressão acessíveis à maioria dos indivíduos), muito fácilmente se encontra na agressividade uma forma de expressão e de afirmação do “eu”. Note-se que é mais fácil destruir que construir.»

Durante a projecção, a susceptibilidade deste psicólogo não provocou pulos na cadeira. Mas em Portugal quem está de certeza a devorar o filme neste momento são os adolescentes, mesmo aqueles que não têm idade para entrar na sala. O especialista compreende esse apelo: «Também há adolescentes que se afirmam pelo o culto da contracultura. É uma forma de se evidenciarem e de se destacarem dos comuns – uma necessidade muito assentuada em alguns adolescentes. Esses poderão manifestar agrado pelo filme. Mas isso não significa que o vão reprodizir na realidade. Pode ser apenas uma expressão de oposicionismoque não passa pelo comportamento agressivo.» Avançamos também com outra hipótese: a do espectador apenas querer ter medo puro durante hora e meia. Sem filmes de terror com violência extrema lá se ia uma das derradeiras hipóteses de nos podermos «escapar».

 

 
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