| É
uma vaga, uma moda em hollywood: filmes de terror
com violência explícita e sempre
com a temática da tortura como prioridade.
São os chamados gornos ( junção
da palavra gore com porno ) ou torture porn.
A discussão já tinha estalado
quando os estúdios americanos começaram
a apostar neste tipo de filmes, sobretudo em
2005, o ano dos sucessos de Saw – Enigma
Mortal e do primeiro Hostel. O rastilho da contestação
aumentou na véspera da estreia de hostel
2 nos EUA, no passado mês de junho. Os
detractores bateram forte e feio na forma como
a violência começou a ser completamente
explícita. A grande maioria da imprensa
americana atacou o fenómeno do «vale-tudo»
em viloência e chamou, literalmente, «irresponsáveis»
aos realizadores e produtores. O certo é
que esses filmes fizeram muito, muito dinheiro
nas bilheteiras. Uma nova geração
de espectadores já não engole
nenhuma obra de terror sem as entranhas bem
à mostra ou os miolos de uma miúda
bem escarrapachados em primeiro plano. Com tantos
protestos, começou a pensar-se que, se
houver recuo de violência nesses filmes,
estaremos então perante uma certa forma
de censura. Levanta-se, obviamente, a questão
da liberdade de expressão artística.
Em defesa desta tendência poderão
estar argumentos que apontam para o direito
à transgressão. O segredo do sucesso
é precisamente dar a impressão
ao espectador de que está a ver qualquer
coisa de perigoso, de proibido. Em todos esses
filmes a tónica, para além da
tortura, é sem dúvida o grau elevado
do sadismo dos vilões, todos eles de
uma imoralidade inimaginável.
Quem parece estar a ser o principal bode expiatório
disto tudo é Eli Roth, realizador vindo
do cinema independente e especialista em emoções
fortes. Foi ele quem criou e imaginou a demência
confessa da saga Hostel. É ele quem está
a ser acusado de «mente doentia»
ou cineasta com tendências sádicas.
Para desmontar as acusações, chegou
a consentir que um grupo de psicólogos
e psiquiatras o avaliasse a partir do visionamento
de Hostel 2. Por muito que todos os fotogramas
salpiquem sangue, os psiquiatras desmentiram
qualquer distúrbio mental. A reputação
de Roth acabou por não ir totalmente
ao ar, mesmo depois de muitos, inclusive colegas,
terem concordado que tinha ido longe demais.
Quem sempre o defendeu foi Quentin Tarantino,
que já o tinha ajudado no primeiro Hostel.
Ambos os filmes chegam com um rótulo
«Quentin Tarantino apresenta» e
foi o próprio realizador de Pulp Fiction
quem o escolheu para actorem À Prova
de Morte, eventualmente também um filme
de terror com pernas amputadas e algum banho
de sangue.
Como não poderia deixar de ser, a violência
no cinema, à luz dos nossos dias, tem
os seus adeptos. Em 2007 já não
nos assustamos com sangue à distância
e são muitos os defensores deste imaginário
cru. Filmes como SinCity ou o próximo
Rambo usam e abusam dessa opção
explícita, não sendo catalogáveis
como películas de terror. Ou seja, o
horror ganhou na América uma bravura
mais realista e quando em Setembro chegar Planeta
de Terror, de Robert Rodríguez, ficaremos
a pensar se toda esta gente não anda
a competir para ganhar o prémio do mais
repulsivo, nojento e impressionante filme da
história do cinema. Claro, para já,
o que está em causa é perceber
se o sadismo de Hostel 2 será, ou não,
desviante ou nocivo, chamemos-lhe assim.
O filme convida-nos a entrar num clube de tortura,
em que mediante uma fortuna qualquer milionário
vai até uma pequena vila da Eslováquia
para torturar e matar, como quiser, jovens turistas
raptados. A garantia é que não
são apanhados porque a organização
assegura sigilo e segurança totais. Na
prática, o que vemos são decapitações,
uma perna a ser cortada para consumo canibalesco,
um duche com o sangue de uma virgem pendurada,
uma castração a um homem e uma
já mítica desfiguração
com motosserra. Respiramos fundo e prosseguimos.
Hostel 2 tem requintes de tortura para dar e
vender. No meio de tanto choque, os espectadores,
entre a perplexidade e o desconforto, riem-se.
Riem-se de nervosismo. Claro, o realizador defende-se.
Faz figura de provocador e lembra a todo o momento
que o filme está classificado para maiores
de 18 anos, que só entra no cinema quem
gosta do género. Quem o conhece sabe
que ele é tudo menos uma pessoa violenta. |
O
psicoterapeuta Vasco
Catarino Soares, da Clínica
Insight – Psicologia, não o conhece
mas depois de ter visto o filme avança
com a hipótese de um retrato psicológico
apenas a partir do que assistiu em Hostel 2:
«Pode ser que seja uma pessoa com grande
necessidade de expressar raiva ou medo, mas
possuidora de uma personalidade algo narcísica
(que em psicologia significa ter necessidade
de reconhecimento por parte dos outros, necessidade
de aparecer, de ser visto, falado. Recupero
aqui uma frase de Oscar Wilde que pode esclarecer:
“Falem bem de mim. Falem mal de mim. Mas
não deixem de falar de mim.”).
Ao ter esta necessidade de ser notado, sendo
realizador no meio de centenas de realizadores,
talvez tente fazer a diferença para não
ficar no anonimato. Uma forma rápida
e mais acessível a estes indivíduos
é enveredar por conteúdos chocantes
( garantia de ser falado, nem que seja pela
critica negativa). Também são
indivíduos que gostam de ir pela contracultura,
rompendo com a ordem vigente, o que lhes dá
a sensação de estar acima dos
costumes: fazem coisas chocantes, que escandalizam
os outros.»
Seja como for,
o nosso convidado desconfia que este tipo de
filmes hiperviolentos acabe por não ser
perigoso para os espectadores. Catarino
Soares lembra que este excesso
de violência está a ficar banalizado
pela sua própria sobreexposição.
Na prática, «esta vaga de filmes
sobre tortura será explicada por vivermos
num mundo em que as respostas de agressividade
e desprezo pelo valor da humanidade vão
acontecendo com mais facilidade. Em parte, motivados
pela banalização da violência
e por um certo vazio de valores ou até
utopias. Num mundo sobrepovoado, onde a expressão
natural das vontades e sentimentos dos indivíduos
é mais dificultada (pelo efeito de número,
pela falta de canais de expressão acessíveis
à maioria dos indivíduos), muito
fácilmente se encontra na agressividade
uma forma de expressão e de afirmação
do “eu”. Note-se que é mais
fácil destruir que construir.»
Durante a projecção,
a susceptibilidade deste psicólogo não
provocou pulos na cadeira. Mas em Portugal quem
está de certeza a devorar o filme neste
momento são os adolescentes, mesmo aqueles
que não têm idade para entrar na
sala. O especialista
compreende esse apelo: «Também
há adolescentes que se afirmam pelo o
culto da contracultura. É uma forma de
se evidenciarem e de se destacarem dos comuns
– uma necessidade muito assentuada em
alguns adolescentes. Esses poderão manifestar
agrado pelo filme. Mas isso não significa
que o vão reprodizir na realidade. Pode
ser apenas uma expressão de oposicionismoque
não passa pelo comportamento agressivo.»
Avançamos também com outra hipótese:
a do espectador apenas querer ter medo puro
durante hora e meia. Sem filmes de terror com
violência extrema lá se ia uma
das derradeiras hipóteses de nos podermos
«escapar». |