O
Limite entre o natural e o patológico
A sexualidade
é uma função biológica,
tão natural como comer e dormir, “temos
que encará-la como normal e necessária
a vários níveis: emocional, físico,
social (procriação)... Todos os
seres humanos adultos, com uma sexualidade saudável,
procuram no relacionamento sexual a satisfação
física e emocional, o orgasmo e a partilha
emocional com o outro com quem se tem intimidade
e amor”, explica
Vasco Catarino Soares. Quando
a actividade sexual é abalada por factores
físicos ou psíquicos, pode desencadear
conscientemente ou não, obstáculos
à vida normal de qualquer indivíduo.
“Apesar de não existir uma fronteira
em termos de número de vezes em que já
se pode falar de sexo exagerado, como para todas
as compulsões, podemos ter como parâmetro
o facto de não existir uma verdadeira
compensação emocional duradoura,
e o facto de este comportamento – e rituais
a ele associados: engate, combinações,
encontros, internet... - roubar tempo às
actividades normais, como o trabalho, convívio
com os amigos e família”, assegura
o psicólogo, acrescentando que “
a partir do momento em que o indivíduo
não consegue investir na esfera do trabalho,
convívio e intimidade podemos falar de
uma situação de patologia”.
Falamos então de “viciados em sexo”
quando a necessidade intensa de actividade sexual
interfere com o trabalho e com os relacionamentos,
quando a pessoa passa a gastar enormes quantidades
de tempo ordinário em vivências
sexuais e a negligenciar aspectos importantes
da vida quotidiana em áreas sociais,
ocupacionais e recreativas. A necessidade de
aumentar a intensidade, a frequência,
o número ou o risco dos comportamentos
sexuais para conseguir o efeito desejado, ou
sentir que o efeito diminuiu apesar do mesmo
nível de intensidade, da frequência,
número ou risco, constitui outros dos
critérios indicativos da existência
de vício sexual.
Chiu...é
segredo
O predomínio
do vicio sexual é difícil de determinar,
em parte porque os viciados em sexo são
pessoas rodeadas de secretismo. Um facto é
que o segredo rodeia o mundo do viciado sexual,
“ fora da rede de contactos que tem comportamentos
semelhantes esta actividade é relactivamente
secreta. Pode falar-se de sexo mas não
do seu exagero, que já não é
muito bem visto social e culturalmente. Apesar
da sexualidade estar cada vez mais aberta e
não existir muita dificuldade em falar
dela, os comportamentos exagerados continuam
a ser pouco aceites. Até mesmo para os
próprios indivíduos, que também
podem não estar completamente à
vontade com este seu comportamento”, diz-nos
o nosso especialista. Quem sofre deste problema
sente-se envergonhado, e normalmente as dificuldades
em reconhecê-lo, só são
ultrapassadas quando surgem problemas a níveis
familiares, económicos (muitos recorrem
à prostituição para manter
o vício), profissionais ou de saúde.
Esta patologia acarreta frequentemente consequências
a nível social indicativas da sua existência,
como são o caso da perda de amizades
e de relações familiares. “
O comportamento sexual pode levar o indivíduo
a desligar-se dos seus contactos não
sexuais “, da mesma forma, “os contactos
sexuais também tendem a não ser
duradouros e até acabar em ruptura. O
que reenvia para o isolamento, relativamente
a relações estáveis e frequentes
relações ocasionais e superficiais”,
explica Vasco
Catarino Soares. A ansiedade,
o stress, a vergonha e a culpa são comuns
no viciado em sexo que vive constantemente com
medo de ser descoberto. O vício progride
conduzindo a possíveis situações
de depressão. “A nível emocional
vai sempre permanecendo o “vazio”
o não preenchimento de afectividade que
desejariam (como aliás todos os seres
humanos). Quanto mais se tenta e menos resultados
aparecem, maior é a sensação
de ineficácia, de vazio”, esclarece
o psicólogo.
Para alguns viciados, pode mesmo chegar ao ponto
de substituírem o desejo de interacção
sexual com outras pessoas por actividades como
a pornografia, internet, masturbação.
Quando o viciado sexual se sente confortável
para se envolver com outros indivíduos,
normalmente procura desconhecidos para sexo
anónimo ou um caso extraconjugal. A protituição
é também bastante procurada pelo
seu carácter anónimo, voluntário
e pela facilidade com que se consegue realizar
qualquer fantasia.
Embora no passado, tenha sido frequentemente
contextualizado como um problema maioritariamente
masculino, actualmente vários autores
sugerem que podem também revelar-se nas
mulheres, embora manifestando-se de diferentes
maneiras. “Também existem mulheres
viciadas em sexo. O mecanismo é o mesmo
que nos homens. Apesar de no caso das mulheres,
e por questões culturais, este comportamento
ter que ser mais secreto. No caso feminino falar
de conquistas sexuais abertamente é ainda
mais censurado socialmente”, esclarece
o psicoterapeuta.
O que
procuram os viciados em sexo
A conduta sexual
compulsiva é indicativa de que algo não
está bem noutros âmbitos da vida,
além do sexual. “Os viciados em
sexo procuram no relacionamento sexual exagerado
( frequência e variabilidade) o orgasmo.
Não nos podemos esquecer que se trata
de uma compulsão (um comportamento impulsivo
para compensar um “vazio” emocional).
Ao praticar sexo estas pessoas procuram uma
compensação em termos emocionais,
que na realidade, de um modo inconsciente, sentem
não ter”, comenta
Vasco Catarino Soares. Segundo
ele, tratam-se de “pessoas inseguras,
mesmo que aparentem ser confiantes. As pessoas
inseguras não acreditam verdadeiramente
que os outros as aceitem ou possam gostar deles,
porque se sentem menos capazes emocionalmente.
Assim sendo o mais próximo que estão
desta aceitação, e o seu comportamento
vai no sentido de sentir que são gostados,
é o comportamento sexual porque é
um acto com a conotação de maior
intimidade e aceitação possíveis”.
Os indivíduos viciados em sexo, mais
do que uma satisfação física
do orgasmo, procuram superar problemas de auto
estima, insegurança, afectividade, ansiedade
e insatisfação. Apesar de “o
comportamento sexual desprovido de afectividade
não lhes dar o afecto que gostariam de
sentir e assim continuam a procurá-lo
em cada novo relacionamento. Mas paradoxalmente
também não desejam ficar comprometidos
com ninguém”. De facto, os contactos
esporádicos são mais frequentes
entre os viciados em sexo “como o que
vão encontrando nos relacionamentos que
têm é apenas o momento do orgasmo
e pouco mais, e não há uma verdadeira
afectividade, tudo o que vem por arrasto, como
as vontades e particularidades dos outros, apenas
lhes interssa o relacionamento sexual e não
a convivência a dois, nem os desencontros
e negociações que a vida de casal
exige. Deste modo, acabam por apenas privilegiar
os contactos esporádicos, sem qualquer
tipo de compromisso duradouro”, afirma
o psicólogo.
Onde está
o perigo?
Na opinião
do Dr. Vasco Soares
viver num mundo em que os costumes sexuais se
alteram não é motivo suficiente
para se ser considerado viciado em sexo. Sair
à noite, frequentar discotecas e associar
este comportamentoao vício sexual, seria
tão extremo como acreditar que por se
viver rodeado de bares somos alcoólicos.
Efectivamente, bares e discotecas facilitam
o sexo casual mas “não é
razão para afirmarmos que alguém
se torna viciado em sexo apenas por frequentá-los.
É necessário existirem determinadas
características de personalidade e condicionates
de vida para que alguém se torne viciado
em sexo”, clarifica o psicoterapeuta.
Mas será então uma predisposição
genética? O Dr.
Vasco Catarino Soares
explica-nos que os antecedentes familiares
não têm que ver com esta conduta,
“o que pode influenciar este comportamento
em termos de família é a forma
muitas vezes errada como a sexualidade é
vivida pela família... Os modos muito
severos e muito permissivos como se educam as
crianças e jovens, que produzem indivíduos
com baixa autoestima, podem, associados a uma
cultura de promoção do sexo (o
marketing moderno apela ao sexo), levar a este
comportamento sexual compensatório de
inseguranças afectivas”, ou seja,
o vício sexual está relacionado,
sobretudo, com a insatisfação
pessoal com que alguém se depara na vida.
O verdadeiro perigo prende-se com questões
de saúde. Falar com um viciado sexual
de sexo seguro não lhe diz nada. A procura
pelo prazer agrava-se com o risco de contrair
doenças sexualmente transmissíveis.
“Uma vez que se trata de um comportamento
compulsivo, o raciocínio de “tomar
precauções” não é
prioritário. Numa situação
de emergência do acto sexual não
havendo contraceptivos este não é
inibido e realiza-se na mesma”, explica.
Cada vez mais
gente recorre a especialistas por causa deste
problema. Há sempre uma solução
para quem pretender reconduzir a sua conduta
e viver o sexo de forma saudável. |