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Eles Viram Um Crime

José viu a arma na mão do assaltante do BES de Setúbal e fugiu do banco. Manuel João segurou um homem moribundo nos braços. Nelson largou o táxi para apanhar um assaltante. São histórias de testemunhas.


Por Ricardo Marques

SÁBADO Nº 130 de 26 Outubro 2006

 
 

“O mais comum é a pessoa retrair-se quando é confrontada com um crime, e sair do local” VASCO SOARES, PSICÓLOGO CLÍNICO

José Carlos Pereira ainda sonha com o que lhe aconteceu há três semanas. Por vezes está dentro do banco, outras dá consigo na agitação da sala de comando policial a falar de pistolas e de pontos de mira. Tudo está como se lembra: os quadros com os nomes das testemunhas na parede, agentes por todo o lado e ele, um vendedor de automóveis, 47 anos, com três filhos, a ajudar a polícia. No dia 4 de Outubro, saiu de casa para pagar uma prestação e acabou como testemunha do mais mediático assalto dos últimos meses. Esteve pouco mais de 20 segundos no Banco Espírito Santo (BES) de Setúbal onde um homem armado sequestrou quatro pessoas durante mais de 13 horas - mas nunca mais os vai esquecer.

"À excepção do silêncio, parecia um dia normal no banco. Havia dois funcionários no atendimento privado e à frente deles, de costas para mim, estava uma pessoa alta, ligeiramente curvada, com o capuz do casaco na cabeça. Havia um saco na mesa.

Quando me aproximei do balcão, parei atrás de um rapaz. E ele disse-me: "Não vê que aquele senhor tem uma arma na mão? Acto contínuo, virei-me para o lado, vi a pistola, era prateada, e já nem respondi ao moço."

Até à primeira porta eram seis passos, mais um e estaria na rua, em segurança. "Nem sequer olhei para trás. Cheguei cá fora, atravessei a estrada e andei até ao carro. Só me virei nesse momento e vi o rapaz também a sair. Liguei para a PSP, mas eles já sabiam." Passaram mais de 20 dias desde aquele passo e José ainda não sabe como conseguiu sair do banco. "Sinceramente", diz, ajeitando-se na cadeira, "agi por instinto". "Não pensei em coisa nenhuma. Pura e simplesmente saí dali. Hoje sei que podia ter levado um tiro. Mas não aconteceu nada", recorda.

A DECISÃO, neste caso, a de sair imediatamente do local, é tomada em segundos. Vasco Soares , psicólogo clínico, explica que a reacção de uma testemunha de um crime não é racional, é puramente emocional. "O mais comum é a pessoa retrair-se e sair do local. Foi apanhada de surpresa e não sabe como reagir. O que conta é o seu historial", explica. Ou seja, a experiência de vida.

Manuel João vinha das traseiras do café, com a comida dos pássaros, quando viu dois homens engalfinhados junto ao balcão. Largou tudo, avançou decidido por entre o fogão velho, as talhas vazias, e os cravos de plástico, e agarrou o que estava mais perto. "Arrastei-o até à porta, mas antes de sairmos ele disse: “Manuel João, estou mal disposto”. Tinha um corte muito grande na barriga", conta o dono da Adega do Saraiva. "Foi o que o matou".

O homicídio, a 7 deste mês, à hora de almoço, deixou marcas em Ervidel, freguesia de Aljustrel pouco habituada a ver crimes sangue. Os dois homens, vítima e agressor, eram irmãos, de 21 e 22 anos, nascidos na terra, e clientes habituais de Manuel, o Parte-cadeiras que herdou do pai a alcunha e a adega. "Vinham sempre almoçar ao sábado e, nesse dia, o pai e um amigo vieram com eles", conta Manuel. Pediram febras, queijo, presunto e azeitonas. No fim, tiveram uma discussão por causa de uma carta de condução.

As vozes já soavam alto quando o mais novo dos rapazes atirou uma garrafa de licor à cabeça do irmão. A seguir, levantou-se e saiu. O pai e o amigo foram atrás. O ferido ficou a limpar o golpe e o assunto parecia arrumado. Manuel João ia fechar a adega, mas primeiro trouxe as gaiolas para dentro e foi buscar a alpista. Tinham passado poucos minutos. O rapaz voltou. Discutiram outra vez e, junto ao balcão, o da cabeça ferida, partiu uma garrafa e golpeou o irmão. O tal a quem Manuel João deitou a mão.

Nessa noite, já depois de a GNR o ouvir, Parte-Cadeiras não dormiu. Como nas noites das semanas seguintes. Ainda não fica na adega sozinho, sai com o último cliente e não dorme. "Vejo tudo outra vez. Para adormecer, só com comprimidos."

A 130 QUILÓMETROS de Ervidel, em Setúbal, José Carlos tem um problema parecido. O que ele não esquece é a arma do crime a que assistiu no BES. O psicólogo Vasco Soares diz que é "normal". "A pessoa tem de organizar todos os acontecimentos da sua vida para antecipar o futuro. Perante um acontecimento traumatizante, não é capaz de o fazer racionalmente e os sonhos são uma forma de o cérebro organizar o sucedido."

Outra reacção comum nas testemunhas é a avaliação a posteriori das acções. "Quando é apanhada na situação, a pessoa pode ter uma fuga para a frente", reconhece Vasco Soares. "Não pesa os riscos e tenta impedir o crime."

Nelson Palma conduzia o seu táxi pelo centro de Faro quando reparou, às 15h de 13 de Fevereiro de 2005, num homem em passo apressado, com um volume debaixo do casaco.

Mais à frente, uma mulher "idosa chorava rodeada por um grupo de pessoas, que se limitavam a olhar. "Senti que devia ir atrás dele", recorda. Virou o carro, acelerou e encurralou o assaltante, mas não foi suficiente.

O homem escapou e Nelson correu atrás dele até o agarrar e recuperar a mala roubada. "Nem me passou pela cabeça que pudesse ter uma faca ou uma pistola." O taxista só voltou a ver o assaltante em tribunal. "Olhei para ele e ele para mim. Estava diferente. Creio que hoje, se ele entrasse no táxi, não o reconheceria." E não tem medo de vingança. "Já me falaram nisso, mas fiz o que era certo", diz a testemunha.

Contudo, para fontes policiais contactadas pela SÁBADO o que é "certo" está a tornar-se "raro". "As pessoas estão cada vez mais fechadas. Alguém pode ser roubado num comboio cheio e ninguém faz nada. Não ajudam nem testemunham.

Abílio Tarrinha professor do ensino secundário, não conseguiu convencer ninguém a ajudá-lo quando foi assaltado. Em Março passado, numa paragem em Aveiro foi agredido e roubado por três jovens. Ficou estendido no chão, com os óculos partidos e a olhar para um autocarro cheio de possíveis testemunhas. "Ninguém me ajudou", lamenta. "Toda a gente sabe quem era um dos assaltantes. O comandante da PSP e o bispo de Aveiro fizeram apelos nos jornais, mas não há testemunhas para depor." Desde então, Abílio já viu duas vezes aquele que todos dizem ser o assaltante. "Foi na esquadra, nas sessões de reconhecimento. Mas não posso garantir, porque vi apenas que era um rapaz, alto e branco. Há milhares de pessoas assim." E como não tem mais ninguém a apoiá-lo, resolveu não acusar nenhum dos possíveis criminosos. "Já não me preocupa o roubo, mas é complicado esquecer a cara das pessoas que iam no autocarro.

A omissão de auxílio pode ser “contagiosa", explica o psicólogo Vasco Soares. "As pessoas têm medo de reagir e de acabarem sozinhas perante os agressores." Dois anos antes de ser roubado, Abílio viu uma polícia ser atacada por outra mulher. De imediato, interveio e imobilizou a agressora. Sem hesitar.

 

 

 
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