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HOMENS DA MAMÃ

Em Itália, chamam-lhes mammoni – adultos que veneram a mãe. Telefonam-lhes todos os dias, vivem perto delas e morrem pelos seus cozinhados. Espanhóis, portugueses e italianos são os piores. Por Cláudia Faria

Por Cláudia Faria

SÁBADO Nº 210 de 08 Maio 2008

 
 

Não há lulas recheadas como as de Maria Helena Gomes. Aos 71 anos, a ex-cozinheira continua a preparar o prato preferido do único filho, Paulo Bento. O treinador do Sporting retribui com mimos e chamadas. “Desde que saí de casa, aos 22 anos, telefono todos os dias à minha mãe. Quando fui para Oviedo, em Espanha, ligava-lhe duas vezes por dia, de manhã e à noite”, confessa. Desde a morte do marido, em 2001, que Maria Helena vive com o filho em Sintra. “Dá-me prazer que esteja comigo”, diz Paulo Bento.
É um laço muito comum no mundo do futebol. O seleccionador de Inglaterra, o italiano Fabio Capello, de 61 anos, também telefona a mãe todos os dias. “É carinhoso como uma flor”, disse Evelina Capello ao britânico the Guazdian. “Liga-me a dizer que tem saudades minhas e sente falta dos meus cozinhados. Sempre foi um menino da mamã (...). Quando estava a treinar o Real Madrid, ligava-me a dizer que se queria ir embora.” Em Itália, já há um nome para os homens que não conseguem cortar o cordão umbilical – mammoni. O termo foi criado pelos americanos Mark J. Penn e E. Kinney Zalesne, autores do livro Microtrends. Designa os homens adultos que saem de casa tarde – depois dos 30 anos – e os que, mesmo a viver sozinhos, mantêm uma relação intensa com mãe.

O LIVRO REVELA QUE este comportamento é mais comum nos países do Sul da Europa, sobretudo Itália, Portugal e Espanha. O psicoterapeuta Vasco Soares diz que o fenómeno sobressai mais na cultura mediterrânica, mas existe em todo o Ocidente. “Há uma certa predilecção das mães pelos filhos por questões culturais e emocionais. Por um lado, eles preservam o nome da família; por outro, podem ajudar as mães a recuperar emocionalmente da relação difícil que tiveram com os seus próprios pais.”


Diogo Infante não se vê a viver sem a mãe. “Telefono-lhe todos os dias. E se não poder ligar, mando-lhe pelo menos um SMS”, diz o actor à SÁBADO. Além disso, faz questão de estar com ela mais que uma vez por semana: “Ou vou visitá-la ou vem ela passar o fim-de-semana comigo.” Maria Infante, de 66 anos, apoia-o em quase tudo – trata-lhe da contabilidade, ajuda-o no secratariado e, além do mais, é uma crítica frontal. “Tal como a minha avó Reneé”, conta o actor, que não esquece as almôndegas e o fricassé feitos pela avó. “Na verdade, tenho duas mães”, diz Diogo Infante. “Dou sempre um presente a ambas no Dia da Mãe.”
O deputado João Rebelo, do CDS-PP, não perde um almoço de domingo em casa da mãe, em Cascais – a matriarca gosta de juntar os sete filhos pelo menos uma vez por semana. “Os cozinhados dela deixam saudades, subretudo a muamba (prato angolano) e as moules (receita belga de mexilhões)”. O deputado garante que a mãe sempre foi o factor de coesão da família. “Nunca trabalhou e tomava conta de nós durante as ausências prolongadas do meu pai, engenheiro na área do petróleo.” Com 38 anos, João Rebelo continua a ir de férias com a família, uma vez por ano, numa volta a Portugal. “É a minha mãe que organiza tudo”, entre roteiros históricos e gastronómicos, sessões de paintball ou corridas de mota, com direito a taças e medalhas. João Rebelo garante que, aos 69 anos, Maria Graciete ainda o põe na ordem. “Uma vez ouviu o meu nome na televisão a propósito das faltas dos deputados e ligou-me logo. Disse que era uma vergonha e que eu era um irresponsável.”
No extremo oposto da Assembleia, senta-se Miguel Tiago. O deputado comunista, de 28 anos, tem uma relação muito próxima com a mãe, Maria da Conceição Crespim. Vivem a poucos quarteirões de distância e jantam juntos pelo menos uma vez por semana. Aos domingos, mal sai do treino aikido, vai directo para casa da mãe. “É minha camarada”.
O psicoterapeuta Vasco Soares conta que a maioria dos homens já não tem vergonha de admitir estes laços. “Socialmente, é uma forma de dissipar o fantasma do machismo. Dantes não era aceite devido ao estigma da fragilidade e da homossexualidade.”
Quando a relação entre mãe e filho é intensa, nem a distância física é um problema. Que diga a mãe de Marcantonio Del Carlo, Coletta Cagliere. Aos 84 anos, a viver em Itália, acompanha de perto a carreira do filho em Portugal. “Não perde uma estreia desde que comecei no teatro Experimental de Cascais, nos anos 80. “Visitam-se várias vezes por ano e mantêm contacto regular por telefone. “Costumamos falar da vida, do trabalho e das saudades que sentimos. Admito que sou um filho-galinha.”

 
 
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