Quem
quer entrar no novo programa da Teresa Guilherme,
O Momento da Verdade, pode esquecer
a sua vida privada. Primeiro, preenche uma ficha
com 40 perguntas picantes, como por exemplo:
“Sabe o nome de todas as pessoas com quem
já dormiu? “Depois, vêm mais
50 perguntas, consideradas um teste de personalidade.
Devem ser personalidades estranhas: “Alguma
vez andou com mais de uma pessoa?” é
uma das questões. Outra: “Já
cheirou a roupa interior do seu companheiro?”
Não basta
a palavra dos correntes. Eles têm de dar
os números de telefone de familiares
e amigos, que são depois contactados
pelo programa para confirmarem as informações
mais íntimas.
E também
não basta a palavra destas pessoas próximas.
A produção exige saber quais foram
os últimos empregos do concorrente e
ter o nome e contacto do chefe actual. No local
de trabalho, haverá muita coisa a confirmar:
o programa sabe qual a relação
do concorrente com os seus superiores hierárquicos
e quais os colegas adorados e odiados.
E ainda não
basta a palavra dos chefes. No final, vem o
polígrafo. Quem mostrar ansiedade, suar
de mais, ficar inquieto e acusar muitas respostas
falsas no detector de mentiras é eliminado.
LUÍS
MIGUEL CARVALHO, de 27 anos, não
foi eliminado. O primeiro concorrente de O
Momento da Verdade contou à produção
tudo, ao detalhe, sobre a sua vida privada:
que já traiu a companheira, Márcia,
mais de 15 vezes; que este ano já pagou
para ter sexo com uma prostituta; que fotografou
cenas de sexo com outras mulheres para mostrar
a sua performance aos amigos; e que
não usa preservativo quando tem relações
sexuais ocasionais. Fez tudo para conseguir
ganhar os 250 mil euros de prémio final.
Márcia
Brandão, de 25 anos, também queria
o dinheiro. Com o objectivo de abrir um salão
de cabeleireiro em Espargo, pequena freguesia
de Santa Maria da Feira com cerca de 3 mil habitantes,
apoiou o companheiro, com quem tem uma filha,
sorrindo a cada resposta embaraçosa.
Quando faltam
três perguntas , Luís Miguel Carvalho
desistiu. Mas as dezoito repostas, dadas perante
845 mil portugueses, foram suficientes para
ganhar 25 mil euros – e para perder Márcia.
Anestesiada pelas confissões e pelas
luzes, Márcia – um dos três
acompanhantes que Luís Miguel levou,
além do irmão e do melhor amigo
– sorriu e bateu palmas em frente às
câmaras. Mas à noite, quando chegou
a casa, rebentou. Nos dois dias seguintes, evitou
sair à rua. À SÁBADO diz
que está arrependida de ter entrado no
programa. “Estou farta. Deixem-me em paz,
a mim e à minha filha [Beatriz, de 8
anos].” A cabeleireira conta que as pessoas
não têm coragem para lhe dizer
nada na cara. “Mas os vizinhos olham para
mim depois do que viram na televisão”,
desabafa, com voz chorosa, confessando que falou
duas vezes com um psicólogo desde que
se meteu nesta aventura. “Se eu soubesse
que ia ser isto, nunca tinha participado. Não
estava preparada, nem queria aparecer.”
Piet-Hein Bakker,
produtor do programa, diz que a equipa tenta
evitar estes problemas. “Se os psicólogos
nos dizem que a pessoa não aguenta e
que lhe vai fazer mal, eliminamo-la.”
O PERFIL
PSICOLÓGICO dos candidatos pode
explicar porque é que se sujeitam a estas
humilhações. “As pessoas
que participam nestes programas sabem, à
partida, ao que vão e estão dispostas
a expor a sua intimidade, a contar os factos
mais chocantes da sua vida, correndo o risco
de magoar profundamente os que lhes são
mais próximos”,
diz o psicólogo Vasco Soares,
apontando para algum egocentrismo.
“São pessoas com uma personalidade
autocentrada, que não se importam com
os outros e que fazem tudo para gratificarem.
Não sentem empatia nem arrependimento
e não conseguem pôr-se no lugar
dos outros.” Pelos vistos, há muitos
portugueses assim. “Recebemos entre 600
e 900 questionários. Desses, conforme
o perfil e a história, seleccionámos
entre 150e 200 para o primeiro casting”,
diz Piet-Hein, da CBV Produções
Televisivas. |