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É Preciso Ouvir os Desenhos

Os lápis na mão de uma criança não é um mero entretenimento. Os desenhos infantis revelam muito sobre o seu mundo. A psicologia usa-os em testes de avaliação psicológica e como instrumento terapêutico. Através do desenho, as crianças desenvolvem a atenção e a capacidade criativa, mas também exprimem traços de personalidade, emoções contidas, receios silenciados, conflitos familiares... É preciso estar atento e «ouvir» o desenho. Sem recriminações.

Por Gabriela Oliveira

NOTÍCIAS MAGAZINE Nº 829 de 13 Abril 2008

 
 
Desinteresse «Somos uma país que desenha pouco.
Desvalorizamos o desenho, achamos que isso é coisa de miúdos.»
 

Sara, 12 anos, quer ser desenhista, só sonha ter uma profissão com lápis na mão: «Adoro desenhar, pegar no lápis e ver as figuras aparecer, é quase mágico, os meus colegas estão sempre a pedir que invente personagens para eles.» Os cadernos da escola estão «cheios de cabeças de cavalo junto ao número das lições», diz sorridente, com o seu cabelo aos caracóis. «Ando sempre a ver se posso desenhar, as coisas surgem-me na cabeça e a minha mão começa a mandar em mim.» Desenha cavalos, ninfas, fadas, princesas... mas também cria personagens inspiradas na famosa mascote do videojogo Sonic para oferecer aos colegas da escola. «Ela ainda não tinha um ano e já fazia círculos e bolinhas, nunca chegou a rabiscar as folhas todas, como faziam os outros bebés», conta a mãe, orgulhosa do «jeito natural» da filha para a arte.

«A maioria das crianças desiste de desenhar, se não for antes, quando chega à adolescência», constata a psicóloga Celina Almeida, directora da Clínica Insight e formadora na área do desenho infantil: «Só as que são muito incentivadas e as que têm mais apetência é que continuam a desenhar, as outras vão desistindo.» Porquê? «Tendemos a desvalorizar o desenho, somos um país que desenha pouco, grande parte de nós diz, de imediato que não tem jeito para desenhar, isso é coisa de miúdos. Preferimos inscrever uma criança com quatro anos em aulas de informática ou de inglês do que em actividades como a pintura e a dramatização, que são mais indicadas para a idade pré-escolar», comenta Celina Almeida. «Muitos pais e professores não se apercebem da importância e das diferentes etapas do desenho infantil e com os seus comentários e reparos contribuem para que as crianças se sintam frustradas e percam o gosto por desenhar.»

Da descoberta à imitação
No início é a descoberta: «A criança pega no lápis como em qualquer objecto para explorar. Mas aquele objecto causa-lhe surpresa: com ele, a criança consegue reproduzir algo, faz um rabisco, deixa uma marca numa superfície, na folha de papel ou noutro sítio qualquer.» O lápis produz um efeito inesperado, vai querer repetir. É a chamada fase dos rabiscos, tecnicamente referida como realismo fortuito. «Nesta altura há sobretudo um prazer motor, é uma coisa quase mágica, a caneta produz um efeito. E há uma grande vontade em ser capaz de controlar o objecto que faz aquelas magias, aqueles traços, que ao principio são muito juntos e sobrepostos, e depois mais separados e ritmados, com adição de pontinhos e linhas curvas. Ainda não são propriamente desenhos, mas rabiscos, grafismos, automatismos», explica a psicóloga Celina Almeida: «as crianças, de um modo geral, vêem os adultos ou até os irmãos mais velhos a escrever e sentem vontade de imitar. Às vezes até dizem que estão a fazer escritos ou a escrever o nome...» Por volta dos três anos é muito frequente gostarem de oferecer desenhos, com um rabisco no canto da folha como assinatura ou como uma suposta dedicatória para a pessoa. O desenho começa a tomar forma e a servir como meio de comunicação.

«Aos três anos, ou mais cedo ainda como acontece com muitas crianças, já existe claramente o intuito de desenhar alguma coisa, de representar a realidade, de reproduzir algo que ela conhece ou que faz parte dos eu imaginário: um cão, uma casa, uma fada.» É a chamada fase do realismo falhado, em que a criança se esforça por dominar o lápis e transformar um rabisco numa figura identificável. Aí pode começar a surgir a frustração, adverte a psicoterapeuta: «As crianças têm uma capacidade muito grande em encontar semelhanças entre um rabisco e um objecto, e podem ficar frustradas se nós não descortinamos o que está lá. Uma linha curva feita ao acaso é um caracol ou outro animal qualquer... nós é que não vemos o que eles vêem.» É preciso evitar comentários depreciativos: «Algumas crianças desenham até à exaustão a mesma coisa, na tentativa de encontrar semelhanças com a realidade.» Exercitando a mão, vão desenvolvendo a capacidade de atenção e a memória.

 

Do entusiasmo à frustração
Pegam numa folha, numa caneta de feltro à sorte e fazem um desenho que, para elas , é claro e óbvio e mostram-no ao adulto. E o que é que ouvem? «Então pintaste tudo da mesma cor? Oh, isto é que é? Esqueceste-te de desenhar as pernas! Olha que o coração não se vê por fora da roupa!», etc. As crianças precisam de ser valorizadas por aquilo que fazem. «Os pais e os professores não devem esperar ou exigir mais do que aquilo que a criança pode fazer e que é próprio para a sua idade», adverte Celina Almeida: «A rigidez estética dos adultos é que não faz sentido! É errado dizer-se a uma criança pequena que o desenho não está bonito porque falta pormenor ou porque as cores não combinam! É o mesmo que pedir a uma criança de três anos que se vista sozinha, ela não vai ter a preocupação de combinar as cores porque nesta fase isso não tem qualquer importância nem os padrões estéticos dela são os mesmos que os nossos.»
Uma cara pintada de azul, uma árvore roxa, um cão cor-de-rosa, porque não? Uma mão com dezenas de dedos, os pés ligados à cabeça, os botões fora do casaco, uma flor maior que uma casa, uma chaminé na posição horizontal... É assim mesmo, não há nada de errado ou a corrigir. «Para elas o desenho é bonito assim. Há estudos comparativos curiosos que mostram que as crianças preferem desenhos, por exemplo, da figura humana, feitos por crianças da mesma faixa etária ou um pouco mais velhas do que desenhos feitos por adultos que, evidentemente, são muito mais elaborados.» Para elas o desenho é bonito, mesmo que aos nossos olhos pareça arcaico. «Primeiro é preciso aceitar, valorizar, enquadrar e compreender o desenho naquela faixa etária.
Com o tempo podemos dar sugestões mas não como reacção imediata.» Na idade pré-escolar a criança ainda não domina a cor, a dimensão, a perspectiva.

«Se a experiência é repetidamente frustrada, se os adultos não dão importância ou estão sempre a apontar falhas, a dizer que está feio ou que podem fazer melhor, a criança sente-se desvalorizada, vai desinteressar-se, vai desistindo.» O prazer de desenhar esmorece. A frustração instala-se e quanto menos pratica, mais se convence de que não sebe desenhar, de que não tem jeito para dominar o lápis. «Convém reservar um cantinho em casa onde as obras dos pequenos artistas possam estar expostas, geralmente é a porta do frigorífico... mas podemos igualmente destinar um sítio onde eles possam desenhar, riscar à vontade. Porque não pôr um painel no quarto deles?», sugere a psicoterapeuta. «Seria bom os pais e os avós incentivarem as crianças desde muito pequenas a fazer desenhos para oferecer como presentes em ocasiões especiais, com direito a embrulho e tudo. Isso será uma forma de as estimular e de as ocupar.»

Valorizar «Convém reservar um cantinho em casa onde as obras dos pequenos artistas possam ser expostas, como a porta do frigorífico...»

 

Descobrir a idade
Olhando para um desenho, podemos tentar adivinhar a idade da criança. A partir dos quatro/cinco anos entra-se na chamada fase do realismo intelectual, que se prolonga até aos seis ou sete anos, conforme as crianças. «Nesta altura, elas fazem questão de desenhar pormenores que, para nós, são desnecessários e que, frequentemente, censuramos como estando a mais», refere a psicóloga. Desenham o coração, o umbigo ou os órgãos genitais por cima das roupas, a comida no estômago, o cabelo debaixo do chapéu, o interior de uma casa... como se as pessoas e os objectos desenhados fossem transparentes. «A criança tem a preocupação de representar o que sabe o que existe mesmo que não esteja à vista.» De repente lembram-se de adicionar mais uma pata ao dinossauro ou mais duas rodas ao automóvel, e o desenho parece ficar desproporcionado e rebatido. «Como se as figuras fossem esborrachadas, espalmadas na folha de papel, de modo a poderem ver-se de todos os ângulos. São os chamados rebatimentos que, a par, das transparências, caracterizam os desenhos nestas idades.» Se existe, tem de caber no desenho, tem de estar lá. «Mais uma vez, os adultos não costumam entender esta necessidade das crianças de mostrarem o seu conhecimento e começam a fazer reparos, a apontar defeitos que, obviamente, não os incentivam a continuar.»

Quando as crianças começam a desenhar como se fosse uma fotografia entram na fase do realismo visual, o que habitualmente acontece por volta dos sete anos. «Desenham como os adolescentes o fazem, ou os adultos. Passam a ter uma exigência estética, quer combinar tons, usar noções de perspectiva, já não lhes interessa apenas reproduzir com pormenor a realidade, querem que o desenho seja esteticamente impressivo e apreciado. Infelizmente , é a fase em que a maioria das pessoas deixa de desenhar.»

Recapitulando, todos nós passamos pelas quatro fases de evolução do desenho infantil: realismo fortuito, a etapa dos rabiscos até aos dois anos; realismo falhado, entre os dois e os quatro anos; realismo intelectual, entre os cinco e os sete anos; e realismo visual, dos sete aos oito anos em diante. «Estas fases não são rígidas, há crianças que começam a desenhar mais tarde e outras mais cedo, a idade pode variar.» Primeiro vem o rabisco, depois os círculos e as figuras ainda pouco definidas, a seguir os desenhos sem noção de perspectiva e com pormenores «a mais» e, finalmente, os desenhos «fotográficos», que tentam retratar a realidade como se fosse uma fotografia. Muitos não chegam a aperfeiçoar a última fase... Basta pedir a um adulto que faça um desenho e aí temos a resposta. «Mas eu não tenho jeito para desenhar!» Será falta de jeito ou falta de técnica e de treino?

 

Escutar o papel
A criança fala através dos desenhos, comunica situações do seu quotidiano, exprime espontaneamente os seus interesses, medos e angústias, revela a noção que tem de si própria e a sua visão do mundo, real ou imaginária. «Quando a criança já é capaz de dominar alguns automatismos, começa a tentar comunicar através do desenho, conta uma história como é frequente dizerem. O desenho passa a ser uma forma de comunicação , um meio onde retratam a alegria, o mal-estar, as dúvidas, as preocupações que possam sentir», explica Celina Almeida.

«Ao contrário dos adolescentes, as crianças não exprimem o seu mal estar verbalmente. Se estiverem habituadas a desenhar, acabam po comunicar as suas emoções, o seu desconforto, através do desenho.» Por vezes, as crianças reagem mal a perguntas directas, sentem que o seu espaço é invadido, ficam ainda mais retraídas e incapazes de responder: Porque estás triste? Conta o que se passou? Estás zangado? «As crianças têm um pensamento mágico: se eu não verbalizar as coisas más e tristes que me passam pela cabeça, elas não acontecem! Receiam falar mas depois isso acaba por sair no desenho, fazem, por exemplo, uma grande tempestade, com chuva, trovões e tudo destruido.» O mal-estar é transmitido na folha de papel. O desenho pode ser o pretexto para a criança falar do que a preocupa. «Os pais e os educadores podem aproveitar essa oportunidade sugerindo à criança que fale do que desenhou.»

A folha de papel serve como mediador. «É um espaço neutro que ajuda a desanuviar a tensão porque a atenção passa a estar centrada no papel. É também um espaço de projecção, a criança vai projectar nas figuras que desenha os seus sentimentos e as suas situações de vida.» Por isso é um instrumento tão usado nas consultas de psicologia.

Os professores têm «uma formação insuficiente para compreender o desenvolvimento gráfico dos trabalhos das crianças. Com uma formação adequada seriam mais capazes de ajudar o desenvolvimento das crianças e manter viva a sua imaginação», afirma Maria Isabel Gândara, no seu livro desenho infantil – Um Estudo sobre os Níveis do Símbolo (Texto Editora). Quando desenham, as crianças esforçam-se por «representar emoções», manipulando a forma, o contorno, o pormenor, a cor, e «inventam contextos para os seus desenhos». Mas é preciso ouvir as respostas das crianças, dez a autora. «Os desenhos exprimem um significado que ultrapassa o aspecto concreto.»

 
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