Na época natalícia,
devemos acrescentar ao cuidado normal a ter
na gestão das compras resultantes das
exigências dos filhos, uma boa dose
de coragem e honestidade. Passo a explicar:
Na altura das festas natalícias há
um grande apelo ao consumo. Apelo este que
se centra no incentivo à compra de
brinquedos e todos os acessórios electrónicos
muito requeridos pelos jovens. Perante toda
uma cultura profundamente enraizada na sociedade,
que "grita" ninguém pode
ficar esquecido e todos tem que ser presenteados,
quem tem coragem para não cumprir com
a premissa?
Apesar do
que na realidade acontece (encher as crianças
com presentalhada que apenas observam meia
dúzia de vezes e depois esquecem durante
o resto do ano), o ideal seria que as crianças
recebessem como presente de natal 2 ou 3 prendas
do seu interesse. Já sei. Vai o leitor
dizer que prendas do interesse do meu filho
são dezenas. É verdade. As crianças
já estão habituadas à
avalanche de prendas no Natal. Mas se sempre
tivessem sido aculturadas no hábito
de receberem 2 ou 3 prendas isto deixaria
de ser um problema actualmente. Então
é preciso que os pais e família
compreendam que o melhor para os seus filhos,
para a sua felicidade, não depende
de receberem uma imensidão de prendas
(e até pode ser prejudicial, pois tornam
a criança pouco resistente a situações
de frustração). Mesmo que no
imediato seja isto o que nos possa parecer
a todos, pois antevemos as birras e os gritos.
Se repararmos bem, da montanha que cada criança
recebe no natal apenas 2 ou 3 brinquedos entram
no leque dos habituais. Noutros casos, o que
se observa são crianças com
quartos cheios de brinquedos em que a criança
pega em todos mas não brinca com nenhum.
Repete actividade sem nexo, muitas vezes destrutiva,
e sem retirar prazer algum da brincadeira.
Para mostrarmos
que amamos os nossos filhos podemos fazê-lo
escolhendo bem algo que é importante
para eles (apostar na qualidade de escolher
conhecendo o presenteado), e desistir de comprar
em quantidade, apenas para se acreditar que
assim se gosta mais. Neste esforço
para sermos mais equilibrados não devemos
cair no erro (que muitas vezes também
acontece) de oferecer prendas para dois irmãos
(diz a tia do Luxemburgo: como é uma
prenda cara e dá para os dois...).
Nunca, mas nunca, escolham esta via. É
fácil, é mais barata, mas só
dá desilusões. Se ouvissem os
relatos que Eu já ouvi em consultório
de situações destas e dos danos
psicológicos que causam. Não
é só por causa do bem material.
É todo o resto: quem brinca mais; porque
é que Eu não mereço uma
coisa só para mim; não era nada
disto que Eu queria. As guerras que se geram
entre irmãos, o choro, a dor de cabeça
dos pais. Muita coisa negativa. Esqueçam
a ideia. É péssima.
A aposta
certa é dar poucos, bons e personalizados
presentes. Juntando a isto muita atenção,
compreensão carinho e aceitação.
E já agora também podem os pais
brincar com os filhos e os poucos bons presentes
que lhes ofereceram, em vez de ficarem horas
a olhar para os ecrans de televisão.
Não
será demais organizar a família
para uma distribuição mais equilibrada
das prendas de natal. Também ajuda
que todos estejam por dentro. Os pais oferecem
aquele brinquedo especial e os restantes familiares
oferecem coisas úteis (não entrem
no esquema do "o meu presente tem que
ser o melhor"). Mas atenção
cuidado com os boicotes. Há muita gente
que vai persistir no velho esquema da inundar
os outros com prendas. Será que é
por não conseguirem mostrar o seu amor
pelos outros de outra forma?