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A Depressão não é uma doença

"Não acreditamos que seja algum dia possível a criação de drogas capazes, sem mais, de tratar a depressão (.) a depressão é uma experiência humana, plurideterminada, com mecanismos psicológicos essenciais e não se vê lá muito bem que um dia seja possível haver uma droga que provoque pensamentos antidepressivos, de autoconfiança, ou o que quer que seja."
(Pires, C.M.L., 2002, pp.113)
 

A depressão é, actualmente, uma das entidades psicopatológicas que mais fama goza entre a comunidade em geral. De facto, não seria muito impreciso, se afirmasse que quase todas as pessoas conhecem alguém que tenha sofrido duma depressão. Não é raro, ainda, encontrarmos notícias e informações que atestam que "a depressão á a doença do séc. XXI".
Bom, que a depressão é uma fonte de mal-estar nas pessoas, parece ser indiscutível, no entanto, a perspectivação tradicional, quase folclórica, que parece querer prevalecer de que, a depressão é uma doença, é, sem dúvida, algo que permanece embrenhado em diversos paradoxos e imprecisões, que poderão comprometer a qualidade de vida junto de quem sofre.

 

Como forma de objectivar a depressão tendo em conta as perspectivas actuais provenientes de vasta pesquisa e experimentação científica, foi solicitada a opinião do Prof. Doutor Carlos Lopes Pires*, que numa breve entrevista, forneceu esclarecimentos preciosos para a clarificação desta problemática.
Assim, como afirma o Prof. Dr. Carlos Pires, a depressão não é uma doença porque, para que tal fosse verdade, era necessário que a sua origem tivesse alguma relação com aspectos biológicos, físicos, facto que, do ponto de vista científico, não é observado. Na realidade, a ideia de que a depressão é uma doença, surge da aplicação do "modelo médico da doença" ao domínio dos distúrbios psicológicos.
Historicamente, esta perspectiva "médica" da depressão sempre existiu, tal como a sua alternativa, a perspectiva psicossocial. No entanto, esta primeira alternativa ganhou, nos últimos 40 anos, um grande impulso, devido ao aparecimento dos primeiros psicotrópicos consistentes: os neurolépticos (fármacos utilizados na terapêutica médica da depressão).

 

De seguida, nos últimos 20 anos observa-se um novo ímpeto como consequência do desenvolvimento de novas substâncias para utilização na terapêutica médica da depressão: os chamados antidepressivos serotoninérgicos.
A partir daí, estas substâncias começaram a ser promovidas como sendo capazes de resolver o défice de serotinina - que era visto como a causa da depressão. A comparação muitas vezes feita é com a Diabetes. Relativamente a isto, o Prof. Dr. Carlos Pires refere que estas considerações não têm qualquer fundamento, pois "só quem não conhece os fundamentos bioquímicos e tecnologia actual da psicofarmacologia é que pode acreditar neste tipo de ideias. Trata-se de mera propaganda."

 

Tendo em conta as razões de base pelas quais a depressão não pode ser uma doença, o Prof. Dr. Carlos Pires explica que a depressão é um distúrbio, que tem geralmente, tanto quanto as evidências científicas actuais permitem dizer, uma origem psicossocial muito complexa, sendo que a sua natureza dimensional (e não categorial) permite a sobreposição com outros distúrbios, nomeadamente a ansiedade. Portanto a depressão caracteriza-se pela existência de baixo afecto, actividade diminuída, desmotivação geral, problemas de sono, entre outros sintomas. Em termos cognitivos, a pessoa apresenta uma perspectiva pessimista sobre si, a vida, e o futuro.
A consequência do distanciamento da perspectiva médica da depressão relativamente à real perspectiva da origem deste distúrbio, tem como consequência, importantes impactos nos indivíduos deprimidos, uma vez que, por inerência, este tratamento farmacológico (médico/psiquiátrico) torna a pessoa mais pessimista, uma vez que fica limitada a algo que não pode controlar (os processos bioquímicos do organismo). Nas palavras do Prof. Dr. Carlos Pires, "à pessoa pouco mais resta do que tomar a medicação". Isto é diferente da pessoa acreditar que a sua perturbação resulta de factores psicossociais, sobre os quais pode agir, e que não são "um destino". No entanto, "há pessoas que se sentem mais confortáveis pensando que têm uma doença" acrescenta o nosso convidado.

 

Desta forma, o Prof. Dr. Carlos Pires refere alguns tratamentos eficazes para a depressão. Assim, os tratamentos mais apropriados, tendo em conta a duração do tratamento, as recaídas, os custos económicos e os efeitos adversos, são, por ordem de eficácia, os tratamentos psicológicos, a prática regular de exercício físico, a biblioterapia orientada (a pessoa é orientada a fazer mudanças tendo em como apoio livros específicos para tal) e, por fim, os antidepressivos.
Finalmente, o Prof. Dr. Carlos Pires adverte que, muitas vezes, a situação de depressão trata-se de um episódio pontual e que passará através de um apoio bem enquadrado em conselhos. Por exemplo, a pessoa deverá ser encorajada a aumentar ou retomar as suas actividades, sobretudo as que são de natureza potencialmente agradáveis. O próprio exercício físico regular, de natureza aeróbica (como correr e nadar) tem efeitos antidepressivos. Para além disto, um facto que muitas pessoas não sabem é que, segundo estudos científicos ao longo do tempo, cerca de 90% dos episódios depressivos têm remissão - desaparecem - ao fim de seis meses, mesmo sem tratamento. Parece que o que falta à comunidade é, essencialmente, informação. No entanto, nas palavras do Prof. Dr. Carlos Pires, "é muito difícil fazer chegar este tipo de informação, já que os próprios meios de comunicação são como que controlados por um sistema muito bem montado para funcionar assim, e que consiste em levar as pessoas a consumir cada vez mais drogas".

 

* Prof. Doutor Carlos M. Lopes Pires é Doutorado pela Universidade de Coimbra, sendo Professor e Coordenador Científico do Curso de Psicologia do ISLA - Leiria, onde dirige a Pós-graduação em Psicologia Clínica e da Saúde e é responsável pelas Cadeiras e Seminários de Psicopatologia, Psicofarmacologia e Terapias Psicológicas. É Psicólogo Clínico em prática privada. È autor das obras : "Compreendendo a enxaqueca"(2002); "A Enxaqueca: pequeno manual de ajuda para pessoas aflitas"(2002); "A depressão não é uma doença" (2002); e "Manual de Psicopatologia - uma abordagem biopsicossocial" (2003).

 

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