Actualmente
a forma como se expressam as compulsões
é diferente de outras épocas.
Assumem-se caras novas que bebem na cultura
actual. Há sempre, em qualquer tipo de
perturbação de comportamento humano,
uma parte que é dependente da cultura
em que vivemos. Não enlouquecemos da
maneira que escolhemos, a cultura previu tudo.
A sociedade fornece a quem “enlouquece” modelos
de inconduta: depressão (coisas negativas
na vida actual + a nossa fragilidade); ansiedade
(muita agitação); compra compulsiva
(muita coisa para comprar + publicidade + status);
anorexia (padrões de beleza). No passado,
a cultura era outra e as formas de expressão
das perturbações seria um pouco
diferente. Nos anos 60, encontrou-se uma sociedade
(Malásia) em que existia uma forma curiosa
de compulsão – o amok -, em que os sujeitos
corriam compulsivamente, sem parar durante horas,
de cabeça em riste massacrando tudo à
sua passagem – permitido, apenas, a quem sofresse
stress brutal.
Porém, a este contexto exterior temos
de juntas as coisas de foro íntimo, da
vida emocional, dado ser daqui que nascem as
compulsões; o exterior apenas lhes dá
forma.
O início do que se poderá transformar,
anos mais tarde, num comportamento compulsivo
(qualquer que seja o seu género) pode
começar como um acto normal (preencher
de afecto o nosso “interior”); uma boa resposta
aos fantasmas que insistem em acinzentar a nossa
mente.
Para uns não passará disso mesmo:
uma solução viável que
apazigua a ansiedade sentida. Estão a
ver o género: uma espécie de Sílvia
compradora de sapatos, que “enxuga” dois ou
três pares num movimento de cartão
de crédito, e depois chega a casa e esconde-os
para não os ver; um Amílcar arrumado,
de patilha aparada, que obriga os amigos a limpar
os pés e sacudir as roupas antes de entrarem
no seu cabriolet (60 prestações);
ou uma Marineide tipo sobrevivente-a-dois-divórcios-trocada-por-miúda-passarele,
que, ao aproximar o Verão, urge nas dietas
de fome e personal trainer a tiracolo. Podemos
ler nestes comportamentos uma procura de equilíbrio,
que vai dando para o gasto, sem que se possa
falar de uma compulsão mórbida
ou doentia, pois não impede o normal
curso de vida e até resulta em bem-estar
e ansiedade compensada.
No outro lado, temos o que é verdadeiramente
dramático: a compulsão que enterra,
a que é intensa e insaciável.
Por mais Sílvia que se seja, por mais
Amílcar ou Marineide ao cubo, nunca deixa
alcançar o alívio da ansiedade
nem o bem-estar procurados.
Âmago da questão?
È que as compulsões só
se realizam para acabar coma a ansiedade. No
entanto, traição maldita!, nestes
casos não é isso que acontece.
Acabam por trazer mais angústia, mais
premência de se continuar. É como
receber uma chamada do estrangeiro, de conhecidos
em férias, entusiasmamo-nos logo, tomando
aquela viagem como nossa. Depois no fim, ao
desligarmos, reparamos que não saímos
do mesmo sítio nem vimos coisa alguma
e as férias perderam o seu valor como
divertimento. Ainda por cima, temos de pagar
parte do serviço de roaming. |