Entrevistador:
Sr. Ex. é conhecida a sua história
de vaidade e recente conversão. Fale-nos
dessa experiência.
Ex-Vaidoso:
Bem. No princípio era uma sensação
de poder e bem estar, porque acreditava em todas
as qualidades que me atribuía. Cheguei
a acreditar que era Jesus Cristo. Ai não!
isso foi uma pastilha marada que me deram numa
RGA nos anos 70. Sim! Fiz coisas horríveis
como olhar para um espelho durante 30 segundos,
na manhã de 14 de Março de mil
nove e 94 – ainda me lembro como se fosse ontem.
Depois... [lágrimas] tudo desabou. Percebi
que me estava a transformar num holograma: vazio,
oco e inconsistente. Foi a minha esposa que
o disse (faleceu nesse dia). Aí vi que
tinha que mudar, o que não foi fácil.
Tive algumas recaídas e ainda me candidatei
a cargos de Presidente (mas nunca desci a uma
candidatura a Belém), mas os outros cotas
do condomínio não votaram em mim.
Entrevistador:
E qual foi o facto que o fez mudar?
Ex-Vaidoso:
Foi uma biografia do Dean Martin,
uma revelação mística.
Quando questionado sobre a sua vida. o Dean
respondeu: - Em beleza. É bestial. Acordo
todas as manhãs. Grande movimento intestinal.
A criada mexicana faz-me o pequeno almoço.
Venho até ao clube. Nove buracos, pelo
menos. Um belo almoço. Vou para casa,
sento-me à televisão, a criada
mexicana faz-me um belo jantar. Uns copos, cama.
Acordo na manhã seguinte. Outro grande
movimento intestinal. Belo. É assim,
a minha vida.»
Entrevistador:
Admirável... Quem são
para si os novos vaidosos?
Ex-Vaidoso:
Ora bem... Acho que agora são
todos advogados e políticos. Hum... Conheço
um tipo apanhador de cartão que também
é. Quase todos. Não posso deixar
de lamentar. É como se uma pessoa ficasse
sem história (fio condutor, sequência).
O vazio do nada obriga o indivíduo a
ter que se reinventar constantemente. Cada dia
um novo episódio. Biografia zero. Ecrã
em branco. |