São 21
horas de um dia banal. Muito coisa foi trazida
à superfície. Na manhã
desse mesmo dia sai-se para a rua. Fugimos para
o metro ou para o autocarro. Procuramos o automóvel
que ficou arrumado num canto remoto do nosso
cérebro e parece não aparecer
mais. Acima de tudo vamos todos à procura
de vida… ou do que acreditamos que ela seja.
Encontramos gente de todas as cores, credos
e feitios.
Um fulano com os dentes podres e brilhantina
no cabelo assobia uma melodia popular. Dá
dois pontapés numa lata que repousa no
chão, inquietando o cão amarelo
(amarelo pois) que lambisca as partes. Também
ele à procura de qualquer coisa: o sentido
da vida ou talvez uma pulga.
No outro lado da rua está um puto reguila,
que troca cromos do Pokemon ao mesmo tempo que
deita o olho a uma rapariga loura (são
sempre louras) e lhe diz: - Ai linda! Ainda
dizem que as flores não andam!
À entrada da padaria está uma
velha com uma caixa de limões a fazer
negócio. Ao seu lado uma mulher de um
pais de leste, com ar triste e duas meninas
à sua frente, a tentar trocar 6 pensos
rápidos por dois limões. Vá-se
lá saber para que os quer.
À porta do infantário do bairro,
há uma pressa incomensurável nos
olhos e gestos dos pais que entregam os seus
filhos para mais um dia de educação.
No coraçãozito dessas mesmas crianças
há desencanto e saudade do afecto. Estamos
na rua e encontramos sempre as mesmas pessoas.
Encontramos sentimentos. Encontramos o pecado.
Todos eles. Mas não encontramos a inveja.
Não. Essa não aparece na rua,
às claras. Esconde-se no mais íntimo
do segredo. No interior da nossa caverna escura.
A inveja é isto tudo e muito mais. Se
repararmos bem vemos que nela se podem encerrar
todos os outros pecados mortais. A inveja é
invejosa e deseja o que é dos outros.
É ávida (gula) e quer sempre mais.
Mas também tem medo que lhe tirem o que
amealhou (é avara) e por isso esconde-se.
Por isso não pode aparecer. Todavia,
outra das suas fraquezas é a vaidade,
pelo que deixa escapar alguns dos seus feitos.
E assim sabemos que existe; onde está
e o que faz. Depois, encontramos nela um pouco
de luxúria também. Porque a inveja
quer ser perfeita, quer seduzir e possuir tudo.
Outra das suas características, que desenvolve
na sequência da anterior, é a raiva.
A inveja tem raiva dos que tem o que ela deseja.
Odeia tudo o que lhe mostra o que lhe falta.
Por fim, o seu último pecado é
o da preguiça, pois só este justifica
que não construa a sua vida, que não
a crie, em vez de querer roubar o que não
é seu. Também há um facto
curioso a respeito da inveja. Já repararam
que no nosso Portugal não há invejosos?
Só se ouve falar de pessoas que são
invejadas e vítimas da inveja. Invejoso
nunca ninguém é. Face a tudo isto
só nos resta fazer uma pergunta essencial.
Por que raio é que se inveja? Mas haverá
alguma coisa no tal dia banal de todos nós
que seja motivo de inveja? Serão os dentes
podres do fulano assobiador? Será a vidinha
do cão? Será o puto reguila e
os piropos manhosos? Ou será a mulher
de leste faminta?
Não sei...
Este foi o último pecado mortal, o que
encerra esta série de crónicas.
Assim me despeço com um conselho:
Se tiverem que pecar, pequem mesmo a sério.
Não brinquem com a coisa. |